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18/07/11 - 14h58 - Fernando Gallo
Hackers querem ensinar governo a abrir seus dados na internet


Publicado no jornal "O Estado de S.Paulo" em 17 de julho de 2011

Na semana em que o ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, anunciou que a Polícia Federal está prestes a divulgar suas conclusões sobre a invasão aos sites de governo ocorrida há duas semanas, um grupo de hackers organizados lançou um manual que contraria a lógica de segurança e ensina os governos a abrirem seus dados na internet.

A comunidade Transparência Hacker, em parceria com o Comitê Gestor da Internet no Brasil e o W3C (consórcio de empresas que trabalham na padronização de dados na internet) estimula instâncias governamentais, por meio do Manual dos dados abertos: governo, a disponibilizar suas informações na rede.

A ideia do documento, destacada logo na introdução, "é explicar como aproveitar o potencial de informações oficiais para permitir a existência de novos serviços de informação, melhorando a vida dos cidadãos e fazendo com que governo e sociedade trabalhem juntos e melhor".

As sugestões dos hackers são similares a itens previstos pela Lei de Acesso à Informação, travada há anos no Congresso, mas não diz respeito a dados sigilosos, e sim a uma espécie de "lado B" da lei, que trata da divulgação e padronização de dados que deveriam ser públicos, mas não são.

"Obviamente sou contra o sigilo eterno de documentos. Isso fala muito sobre que tipo de democracia nós somos. Mas essa lei não fala só do passado, mas também do presente e do futuro. A gente não pode criar barreiras a um projeto de lei por causa dos documentos secretos. É um atraso democrático sem tamanho ele não ter passado", afirma a ciberativista Daniela Silva, membro da Transparência Hacker.

Segundo os hackers, os governos podem criar valores a partir da liberação de dados, porque isso estimularia transparência, controle democrático, participação popular, melhores produtos e serviços privados e mais eficiência de serviços públicos.

Ações. Um dos objetivos do manual é mostrar aos governos que a sociedade pode desenvolver ferramentas de internet úteis para o cotidiano das pessoas.

Recentemente, Maurício Maia, um dos membros da comunidade hacker criou o projeto Alagamentos SP, com índices sobre os alagamentos na cidade. Para isso, teve de hackear o site do Centro de Gerenciamento de Emergências da capital, porque o site não disponibiliza as informações de forma adequada. Não permite visualizar, por exemplo, qual a via campeã de alagamentos. No aplicativo desenvolvido, esse cruzamento é possível.

O próximo projeto de Maia é elaborar um sistema que permita que as informações sobre os alagamentos sejam retransmitidas em tempo real por uma conta de Twitter ou por SMS.

Ricardo Poppi, outro hacker, desenvolveu um site chamado Xerifes do DF, que cruzou informações do Tribunal Superior Eleitoral para mostrar a votação de cada deputado em cada uma das zonas eleitorais do Distrito Federal. A visualização mostra os "currais eleitorais" de cada parlamentar.

Nos dois casos, os desenvolvedores passaram dias hackeando sites públicos para conseguir as informações, que já são públicas, mas poderiam estar disponíveis de outras formas. O manual também ensina - como prega o projeto de Lei de Acesso à Informação - que os dados devem ser entregues em estado bruto e em textos e planilhas. Os hackers querem combater alguns formatos considerados inadequados para a divulgação de informações públicas.

"A extensão PDF, por exemplo, é uma praga", afirma Daniela. "Em um programa tipo Word ou Excel você pode manipular as informações, copiar, colar, exportar o gráfico, você hierarquiza. O PDF é quando você pega uma planilha e tira um foto. Nada daquilo mais é dado. Aquilo vira imagem. É muito bom de ver e muito ruim de usar."

PARA LEMBRAR

No mês passado, o grupo Lulz Security Brazil invadiu os sites da Presidência da República, da Receita Federal e do Portal Brasil e outros órgãos públicos. Chegaram a publicar supostos dados pessoais da presidente Dilma Rousseff e do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. O motivo seria um protesto contra a corrupção. 

 


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