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17/04/13 - 11h59 -
Assassinatos de jornalistas disseminam terror na imprensa no Vale do Aço


 

Publicado em 17 de abril de 2013 no O Estado de Minas

Decorrente de mais de 20 anos de assassinatos, afrontas à lei, desafios à Justiça e impunidade, o medo que ronda a imprensa do Vale do Aço faz mais vítimas, além do repórter Rodrigo Neto, de 38 anos, executado em 8 de março, e de seu colega de trabalho, o fotógrafo Walgney Assis Carvalho, de 43, morto no domingo, 37 dias depois. Acredita-se que os casos estejam ligados e as suspeitas recaem sobre um esquadrão de extermínio formado por policiais militares e civis. Rodrigo vinha denunciando que pelo menos 20 integrantes das forças de segurança acusados de execuções continuavam impunes. Antes dos dois últimos assassinatos, havia cinco profissionais de jornais e rádios sediados em Ipatinga especializados na cobertura policial. Dos três sobreviventes, dois estão sob ameaça, enquanto o outro pediu demissão e fugiu da cidade sem deixar rastro. As informações são da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e do comitê de profissionais de imprensa que acompanha as investigações. Com os dois homicídios, o Brasil passou a ocupar o terceiro lugar em mortes de jornalistas, segundo a ONG Repórteres Sem Fronteiras, com quatro óbitos neste ano – metade em Ipatinga. Fica atrás apenas do Paquistão e da Síria, países em conflito armado que registraram cinco mortes.

O Estado de Minas conseguiu contato com o repórter que abandonou a cidade. Ele relata o pânico que ronda os profissionais e os impede de confiar nas forças de segurança pública, e até mesmo em programas de proteção do Estado. “É impossível exercer a profissão com o mínimo de segurança, hoje, no Vale do Aço”, desabafou o repórter, que falou ao EM de uma cidade distante de Ipatinga. “Depois que mataram o Rodrigo e o Walgney, sobramos apenas três na linha de frente da reportagem policial. Dois vinham recebendo ameaças, sendo que um deles até andou com escolta armada. Não quis esperar minha vez chegar”, disse.

De acordo com o jornalista, o grupo de extermínio que age nas principais cidades do Vale do Aço não aparenta ser um grupo de pistolagem que receba dinheiro de empresários, políticos ou do crime organizado, mas sim uma frente de policiais que se impõe pela violência e pelo medo, eliminando desafetos ou acusados de crimes contra integrantes das forças de segurança. Para isso, investem até mesmo contra famílias e amigos de quem consideram seus inimigos. “Tenho medo pela minha segurança, mas também pela dos meus pais e amigos. Essas pessoas tentam atingir seus alvos por meio dos familiares e conhecidos. Matam e até envenenam para atrair quem está escondido”, disse.

Perguntado se pensa em procurar a polícia ou o Ministério Público para pedir proteção, o jornalista de Ipatinga descarta essa possibilidade, por temer por sua segurança e não confiar na estrutura do poder público. “Meus amigos (Rodrigo e Walgney) denunciaram e não adiantou. Terminaram mortos. Não confio em mais ninguém”, afirma. Antes de o fotógrafo ter sido morto, no último domingo, o repórter conta que a mãe já pedia ao colega que abandonasse a profissão, e a cidade também, com medo de que algo pudesse acontecer. 

Exilado

O jornalista nutre poucas esperanças de retornar à cidade do Vale do Aço. “Lá não vou ter tranquilidade. Estou com o coração partido, porque amo minha profissão, meus pais e todos os que deixei, mas não tenho condições de voltar”, lamenta. “Eu já estava ficando com paranoia. Não tinha mais vida social. Tudo o que acontecia achava que era alguém me perseguindo”, relata. “Se saía com amigos, nunca me sentava de costas para a rua e não deixava ninguém fazê-lo, com medo de alguém em uma moto passar atirando. Quando chegava em casa, dava duas voltas no quarteirão para ver se havia alguém me seguindo.”

O Comitê Rodrigo Neto, que acompanha as apurações dos crimes contra a imprensa local, divulgou nota manifestando “indignação com as declarações do subsecretário de Defesa Social, Daniel de Oliveira Malard”, que disse em Ipatinga que jornalistas deveriam ser cuidadosos como medida para sua segurança, “tal como o fazem juízes e policiais”. De acordo com o comitê, “ao transferir a responsabilidade da segurança aos próprios jornalistas, o Estado mais uma vez dá mostra da fragilidade do sistema e descontrole sobre as forças de segurança do Vale do Aço”. O grupo lembra ainda que promotores, juízes e policiais “têm porte de arma, treinamento e escolta policial, se solicitada”.  A Associação Nacional de Jornais (ANJ) divulgou ontem nota referente ao assassinato do fotógrafo Walgney, manifestando repúdio ao que classificou como mais um atentado à liberdade de expressão e, diante das evidências de ligação do crime com a morte do repórter Rodrigo Neto, cobrou elucidação dos casos e punição dos culpados.

Denunciados impunes

As denúncias que Rodrigo Neto divulgou no Jornal Vale do Aço vêm sendo feitas na região há anos e fazem referência a 10 casos, com pelo menos 20 mortos desde 1992. São citados 21 policiais envolvidos. Nenhum foi condenado até hoje, ainda que oito procedimentos tenham sido abertos. Três foram concluídos sem qualquer punição. Quatro estão em tramitação. Sobre o último não há informações.

Rodrigo morreu na madrugada de 8 de março, quando saía de um bar no Bairro Canaã, em Ipatinga, e entrava em seu carro. Dois criminosos passaram em uma moto e atiraram no repórter, que chegou a ser socorrido no hospital municipal. Vítima da mesma forma de execução que vinha denunciando em vários episódios, Rodrigo estava escrevendo um livro intitulado Crimes perfeitos, que denunciaria execuções sumárias, envenenamentos e desaparecimentos de pessoas que envolveriam a ação de policiais militares e civis no Vale do Aço. Ele foi assassinado depois que passou a publicar no Jornal Vale do Aço reportagens sobre 10 desses crimes.

Para a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia e também para jornalistas locais, Walgney Carvalho foi executado no último domingo, em Coronel Fabriciano, na mesma região, porque teria informações sobre o assassinato do colega de trabalho. A forma como morreu, alvejado três vezes por um garupa de uma motocicleta, reforça a tese, bem como a munição usada, que era de calibre 38, a mesmo usada contra Rodrigo Neto. Os projéteis não eram comuns, mas caraterísticos de assassinos experientes, pois se fragmentam quando entram no corpo e potencializam os estragos.

A Polícia Civil informou, por meio de nota, que uma equipe especializada na apuração de homicídios e as corregedorias da corporação e da PM investigam o caso. E reiterou que as circunstâncias em que os crimes ocorreram serão esclarecidas, “apontando os culpados, sejam eles quais forem”.

O secretário de estado de Defesa Social, Rômulo Ferraz, afirmou ontem que há firme determinação de investigar os casos e solucionar a onda de crimes no Vale do Aço. Segundo o Ministério Público, há possibilidade de relação entre pelo menos 10 homicídios na região, incluindo os dois últimos, de repórter e fotógrafo. “Enfrentamos um histórico de violência na região, com intimidação e até eliminação de testemunhas, mas tudo isso está sendo combatido pela secretaria. Temos uma renovação de delegados e afastamentos na região de Ipatinga e Coronel Fabriciano. Não vamos tolerar essa situação e o trabalho será contundente”, afirma o secretário. (Com Júnia Oliveira e Guilherme Paranaiba)

 

Crimes investigados ou denunciados pelo jornalista Rodrigo Neto


12 de maio de 1992 – Desaparecimento de Juninho

O catequista Nelson Ferreira Júnior, o Juninho, então com 19 anos, desapareceu depois de uma abordagem policial no Bairro Ideal, em Ipatinga. Ele, o irmão Nanderson Magno Reis, de 17, um amigo e três garotas estavam de carona em um Opala branco, quando, às 23h30, foram abordados por nove policiais, que saíram de uma Kombi fortemente armados e teriam disparado antes mesmo da saída dos ocupantes do veículo. Juninho se assustou e correu. Policiais o seguiram e ele nunca mais foi visto.

» Situação: Todos os policiais envolvidos na operação foram absolvidos. Um deles continua na PM e obteve várias promoções. Outro foi eleito vereador em Ipatinga

2005 a 2008 – Crimes da moto verde

O soldado V. E. M. A., que até 2009 trabalhou no 14º Batalhão da PM em Ipatinga, responde a quatro inquéritos na Justiça por homicídios. É apontado como responsável por uma sequência de assassinatos ocorridos entre 2007 e 2008 na periferia.Todos foram assassinatos cometidos com motocicletas, contra pessoas com passagens pela polícia ou envolvimento com o autor, mortas por pistolas semiautomáticas, com tiros disparados em pontos vitais. O Ministério Público e a Polícia Civil apontaram V. E. como o executor dos crimes.

» Situação: Equipe da Polícia Civil de BH afirmou que se trata de indivíduo acometido de psicopatia, de alta periculosidade. Ele foi transferido para Lavras, no Sul do estado, por “problemas disciplinares”. Continua na PM. 

14/01/2006 – Chacina de Belo Oriente

Três pessoas da mesma família foram assassinadas no Bairro Santa Terezinha, em Belo Oriente. A principal hipótese é de que tenha sido represália ao assassinato de um policial civil da cidade. Os mortos eram mãe, irmão e cunhado de Juliano Batista Ferreira, que meses antes havia tirado a vida do detetive Lahyre Paulinelli, após uma discussão. Juliano foi preso no fim do ano de 2005 e condenado a 14 anos de detenção em 2008.

» Situação: Inquérito foi concluído em 2012, sem apontar culpados. A própria Polícia Civil relatou que envolvimento de policiais tornava apuração mais difícil. 

17/01/2007 – Assassinato da missionária Anelise Teixeira

Reportagem do jornalista Rodrigo Neto informou que um cabo da Polícia Militar, lotado no 14º BPM, foi apontado pela Polícia Civil como assassino da missionária Anelise Teixeira Monteiro Carlos, de 38 anos, em janeiro de 2007. A principal testemunha do caso, que relacionou o PM à morte, Daniel Silva Araújo, de 48, foi executada em 9 de abril de 2010, com oito tiros pelas costas em um bar na zona rural de Ipatinga. O assassino chegou ao estabelecimento com um capacete de viseira escura e fugiu sozinho em uma motocicleta prata. 

» Situação: O policial continua lotado no 14º BPM e o processo tramita na comarca de Caratinga. A primeira audiência está marcada para julho de 2014. A morte da testemunha Daniel não foi elucidada.

8/2/2007 – Caso Diunismar

Execução do mecânico Diunismar Vital Ferreira, de 41 anos e do instalador de máquinas José Maria, de 58. Foram mortos por uma dupla em uma motocicleta, da mesma forma pela qual Rodrigo Neto de Faria seria assassinado seis anos depois. O repórter trabalhou para que o duplo homicídio não caísse no esquecimento. Diunismar e José Maria estavam em uma padaria quando o garupa de uma moto atirou contra os dois. Juninho foi atingido quatro vezes. O colega pode ter sido executado por ter visto o executor. Familiares do mecânico disseram que um capitão da PM teria feito ameaças a ele por causa do envolvimento do militar com a namorada de Juninho. 

» Situação: Crime ainda em investigação.

28/06/2011 – Caso Japão

O traficante Maxwel de Oliveira Silva, o “Japão”, de 30 anos, estava na garupa da moto do irmão quando dois homens se aproximaram em outra moto e um deles disparou várias vezes contra Maxwel. Ele acabava de sair da 1ª Delegacia Regional de Polícia Civil, onde prestara depoimento apontando um cabo lotado no 14º BPM como suspeito de tentar matá-lo. Maxwel era um dos responsáveis pelo tráfico de drogas no Bairro Nova Esperança, em Ipatinga, e sua morte está ligada à disputa por venda de drogas. As informações são de que outro traficante encomendou ao cabo da PM a morte do rival. O policial faria parte de um grupo de extermínio. 

» Situação: Inquérito remetido à Polícia Civil de Belo Horizonte.

30/10/2011 – Chacina de Revés de Belém

Corpos de quatro adolescentes foram encontrados nus e com perfurações de arma de fogo na nuca, na localidade de Revés de Belém, distrito da Caratinga. John Enison da Silva, de 15 anos, Nilson Nascimento Campos, de 17, Felipe Andrade, de 15, e Eduardo Dias Gomes, de 16, de Ipatinga, foram vistos pela última vez por familiares em 24 de outubro de 2011, quando foram apreendidos pela PM com pedras de crack. Encaminhados à delegacia, apedrejaram uma viatura da Polícia Civil depois de liberados. Foi a última vez que foram vistos.

» Situação: Foi pedida ajuda da Polícia Civil de Belo Horizonte, dada a “complexidade” do caso. 

29/02/12 – Desaparecimento de jovens em Santana do Paraíso

Quatro jovens entre 13 e 19 anos foram vistos pela última vez no Bairro Cidade Nova, em Santana do Paraíso. Uma adolescente que estava com eles na casa onde usavam drogas viu quando um carro identificado como da Polícia Civil levou Jonathan da Silva Santos, de 17 anos, Vitinho, Luciano, de 18 anos, e Wesley. Rafaela Miranda de Jesus, de 19 anos, deu entrevista a um jornal de Ipatinga, em 7 de março de 2012, sem se identificar, temendo represálias. A testemunha foi assassinada em 1º de maio de 2012 por uma dupla em uma moto. 

» Situação: Em apuração pela Corregedoria da Polícia Civil de Belo Horizonte, sem previsão de conclusão.

28/10/12 – Caso Natanael

O soldador Natanael Alves afirmou à Polícia Civil em 5 de fevereiro de 2012 que foi torturado por policiais militares em Coronel Fabriciano. Os PMs chegaram a ser indiciados pela Polícia Civil, mas, em 7 de março, Natanael mudou a versão, dizendo que “combinou” com a Polícia Civil de acusar os militares em troca de sua liberação, depois de ser conduzido à delegacia ao ser detido numa blitz de trânsito. A nova versão teve a chancela de um delegado aposentado, que acusou outro policial de chefiar um esquema de corrupção na corporação. O soldador, de 25 anos, foi morto com 12 tiros na Avenida Brasil, no Bairro Santa Cruz. 

» Situação: Inquérito remetido à Delegacia de Homicídios de BH corre em segredo de Justiça.

8/2/2013 – Cabo Amarildo

O policial militar Amarildo Pereira de Moura, de 50 anos, foi assassinado. Em menos de 24 horas, três principais suspeitos foram presos. O quarto, Daniel Wattson Costa, de 18 anos, foi liberado por falta de provas. No dia 22 daquele mês, o pai de Daniel, Sebastião Ludovino de Siqueira, de 66, foi assassinado. Dois dias depois, Daniel foi preso pela PM. Rodrigo Neto disse em seu programa de rádio: “Eu não quero acreditar que nós estamos vivenciando o mesmo quadro de Belo Oriente, quando mataram um detetive e, em vingança, dizimaram uma família (…).Não é um parente do cabo Amarildo ou um colega de farda dele ou de outra instituição que vai determinar isso, porque aquele que mata para vingar em nada difere daquele que matou pelo mesmo motivo”. 

» Situação: As investigações sobre a morte do cabo Amarildo foram concluídas. Já o inquérito sobre a morte de Sebastião está na Delegacia de Santana do Paraíso.

FONTE: Relatório da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa e Jornal Vale do Aço

 


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